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Um Lugar Selvagem - Christian White (Prólogo e 1° Capítulo)





No verão de 1989, um adolescente local desaparece do idílico subúrbio australiano de Camp Hill. Enquanto rumores de rituais satânicos se espalham, o professor Tom Witter se convence de que ele tem a chave para o desaparecimento. Quando a polícia não ouve, ele resolve o problema com a ajuda do pai da menina desaparecida e de um grupo de vigilância local.

Mas à medida que segredos obscuros são revelados e as consequências de ações passadas são enfrentadas, Tom descobre que a única maneira de sair da escuridão é entrar mais fundo nela. Um Lugar Selvagem descasca as camadas do subúrbio, expondo o que está escondido por baixo – culpa, desespero, violência – e tenta responder à pergunta: por que pessoas boas fazem coisas ruins?




Para meus irmãos, Niki, Peter e Jamie




SEXTA-FEIRA


8 DE DEZEMBRO, 1989



“A existência de Satanás é uma questão de crença, mas a existência do satanismo é inegável. As trevas se escondem por trás da música preferida do seu filho, nas prateleiras de sua locadora de vídeo, nos lares, escolas e parques de qualquer cidade pequena do país. No episódio de hoje de Special Look, mergulharemos no perigoso e perturbador mundo da adoração ao diabo. É uma epidemia que se espalha rápido. Ninguém está seguro, especialmente os seus…”


Nancy Reed diminuiu o volume da TV. Isso não fez muita diferença. Ainda havia barulho demais dentro de sua cabeça. Ela estava fazendo as duas coisas que poderiam arruinar qualquer noite de sexta-feira: beber sozinha e refletir sobre a própria vida.


Em algum momento, tudo deu errado. Ela tinha quarenta e um anos, estava desempregada e encarava um processo de divórcio. Mas, olhando para trás, fazendo uma espécie de autópsia da própria vida, não havia sinais óbvios de perturbação, apenas uma série de decisões erradas. A causa da morte, pelo que parecia, era a vida em si.


Já eram quase onze horas da noite. Era tarde para os padrões do subúrbio. Sua filha estava dormindo na casa de uma amiga, e seu marido — ex, ela fez questão de se lembrar — se encontrava em um quarto barato no acampamento Motor Inn, para onde havia se mudado enquanto finalizava o processo de divórcio. Nancy estava sozinha, livre para cair em um poço de desespero e autopiedade. Na mesinha de centro a sua frente, havia uma cópia do jornal The Camp Hill Leader, aberto na seção de classificados. Um marcador de texto amarelo ao lado, ainda com a tampa. Os únicos trabalhos para os quais ela parecia qualificada eram caixa de supermercado e cozinheira de lanchonete, mas ela não estava tão desesperada. Ainda não.


O problema de ser dona de casa era que nenhuma de suas habilidades eram transferíveis para o mundo dos negócios. Dezessete anos criando uma filha deveria qualificá-la o suficiente para negociar reféns, ou ter um cargo importante em um hospital psiquiátrico. A culpa era do Owen. Ele insistiu que Nancy parasse de trabalhar; era antiquado nestes assuntos. Ou talvez só precisasse de alguma desculpa para poder agir feito um idiota. Talvez ele soubesse que, quando alguém depende de você para tudo, é mais difícil de se ir embora.


Sentindo-se terrível, ela bebeu mais.


Crac.


O barulho veio de trás dela. Ela se virou para olhar por cima do sofá. Quase todas as luzes da casa estavam desligadas — ela logo iria começar a pagar a própria conta de luz, e já queria se acostumar com a economia. A TV projetava sombras trepidantes pelas paredes da casa. Não havia ninguém ali. Ao menos ninguém que ela pudesse ver. Nancy ficou em pé e ouviu outra vez: um click metálico suave, e um longo e demorado crac. A janela de um dos outros quartos estava sendo aberta pelo lado de fora. Ela se esgueirou pela cozinha e parou logo antes do corredor.


Silêncio.


Antes de andar até o fim da casa para investigar, ela passou pelo rack de panelas e pelo bloco de facas Ginsu, que eram afiadas o suficiente para atravessar um sapato de couro — mas espere, tem mais! — e se armou com um grosso guia telefônico.


Uma arma seria melhor, é claro. Havia uma dentro da casa, um rifle que Owen usava para caçar coelhos com os primos — que moravam ao norte, na porra do meio do nada —, mas a arma estava do outro lado da casa, na última prateleira de seu armário, em um estojo trancado. A chave estava no bolso das calças jeans de seu ex-marido, que, no momento, certamente estavam jogadas em uma cadeira daquele hotel barato. Nancy considerou ligar para ele, mas decidiu que preferia ser desmembrada e largada em alguma cova rasa. Por mais que ela odiasse admitir — e nunca o faria em voz alta —, Nancy sentia falta de um homem em situações como aquela. Ela estava pegando o jeito de como ser mãe solo, mas algumas vezes ela queria uma criatura que pudesse enviar cegamente em direção ao perigo, antes dela mesma. Ela estendeu a mão e ligou o interruptor, aliviada em descobrir que não havia nenhum assassino psicótico esperando por ela.



Ela segurou o guia telefônico com força e seguiu pelo corredor. Na metade do caminho, percebeu algum movimento. Uma luz piscou em algum lugar. Um finíssimo fio de luz brilhava sob uma das portas. O quarto de Tracy. Mais dois passos, e então ouviu o som de gavetas sendo abertas e reviradas. Se eles — seja lá quem “eles” fossem — estivessem saqueando qualquer um dos outros quartos, Nancy poderia ter corrido até a casa do vizinho e ligado para a polícia.


Mas eles estavam no quarto de sua filha. Ela abandonou qualquer senso ou razão e sentiu apenas o ódio fervendo dentro de si. Ergueu o peso com a mão direita. Com a esquerda, ela envolveu a maçaneta e abriu a porta com um golpe rápido.


No meio do quarto, estava parada uma jovem com cabelos loiros vibrantes, descoloridos há tão pouco tempo que era possível sentir o cheiro dos produtos químicos.


— Tracie?


A filha de Nancy deixou escapar um grito de novela, e cambaleou para trás tão rápido que derrubou uma pilha de fitas cassete de sua mesinha de canto.


— Jesus, mãe, você me assustou.


— Eu te assustei? Eu achei que fosse um invasor!


— E seu plano era o quê, ligar para um táxi?


Nancy exalou, deu uma risada e baixou a lista telefônica.


— O que aconteceu com o seu cabelo?


Quando Tracie saiu de casa mais cedo, ela ainda era morena. Tinha lindos cachos naturais, e chegara em casa parecendo a Debbie Harry.


— Deu vontade de mudar um pouco. É tipo um comentário. Você gostou?


— Claro. — Ela mentiu. — Sabe, a maioria dos adolescentes tentam sair de fininho pela janela. Não o contrário.


— Esqueci minha chave. Não queria te acordar.


— Achei que iria passar a noite na casa da Cassie.


— A gente brigou. — Tracie chutou os tênis para o lado. — Como vai a procura de emprego?


— Não vai.


— Que bom — disse Tracie. — Você não precisa de um emprego. Precisa de um encontro.


— Eu prefiro me dar um tiro, mas obrigada mesmo assim.


— Mãe, qual é, você é bonita e engraçada e... até que jovem.


— O lado do seu pai na cama ainda tá quente.


— Mas eu não vou ficar aqui para sempre.


Aquilo doeu de um jeito que Nancy não esperava. Era verdade, claro. Tracie havia terminado o ensino médio. Ela iria para a universidade no ano seguinte e então seria trabalho e namorados e casamentos e filhos, e Nancy eventualmente morreria. Sozinha. Mas não era aquilo que a incomodava. Correção: não era aquilo que a incomodava naquele momento. Era algo no tom de voz de Tracie. Não vou ficar aqui para sempre. Era o tipo de coisa que os pais diziam dizer para seus filhos. Desde a separação, Tracie parecia mais velha. Era uma coisa estranha de se dizer sobre alguém de dezessete anos, mas era verdade. Até a cor dos seus olhos estava mais densa.


— Seu pai e eu vamos ficar bem — disse Nancy. — Não precisa se preocupar com a gente.


— Eu não estou preocupada com meu pai. Não dessa forma, pelo menos. Ele vai casar com a primeira que aparecer.


— Ele não é assim.


— Ele é um sobrevivente, mãe.


— Se ele é um sobrevivente, então eu sou o quê? — Nancy perguntou.


Tracie balançou a cabeça:


— Eu só odeio pensar em você morando nessa casa sozinha.


Nancy suspirou, e então sentou na cama e ajudou a filha a se ajeitar sob as cobertas. Um vento quente e suave entrou pela janela aberta.


— Então — disse Nancy. — Me conta do cabelo.


— O que ele tem?


— Às vezes, quando fazemos uma mudança grande assim, é porque perdemos o controle de algo importante em nossas vidas. E essa é uma forma de recuperar esse controle. Não foi por causa do divórcio, não é?


Tracie sorriu, mas este sorriso desapareceu rápido.


— Não tem nada a ver com você, mãe. Isso provavelmente vai parecer loucura, mas eu queria parecer uma pessoa diferente... Eu... Eu acho que alguém está me seguindo.


Nancy se aproximou.


— Algumas noites atrás, alguém ligou para cá. — Tracie explicou. — Quando atendi, quem estava do outro lado da linha não disse nada. Mas eu conseguia ouvir a respiração. E desde então eu tenho essa sensação, sabe? Como se eu estivesse sendo observada. Outro dia, no rinque de patinação. E hoje, de novo, no cinema.


Nancy esperou a filha terminar. Então, perguntou:


— É só isso?


— É só isso?


— Você viu alguém?


Tracie a encarou.


— Não exatamente.


— Será que não foi a sua mania de espiar que te deixou um pouco paranoica?


— Eu não espiono, mãe... Eu capturo a verdade. Isso é tipo Jornalismo básico.


— Desculpa, querida, mas você costuma fazer isso.


— Fazer o quê?


— No mês passado você tinha certeza de que havia alguém arranhando a sua janela pelo lado de fora. Mas aí o barulho sumiu magicamente quando eu podei o limoeiro do quintal. Aí no mês anterior, você achou que um poltergeist estava movendo coisas pela casa, mas era só uma janela aberta no quarto vago. Você tem uma imaginação fértil, querida. É uma das coisas que te torna única. Mas ela também te deixa... — Nancy escolheu a palavra seguinte com cuidado. — Expansiva.


— Você tá parecendo a Cassie. Ela diz que, porque sou filha única, preciso sempre de atenção.


— Eu odeio admitir…


— Então não admita.


— ...mas talvez a Cassie tenha razão.


— Eu te odeio.


— Também te amo. É por isso que você e a Cassie brigaram?


— Na verdade, a briga foi sobre você e o meu pai. — A expressão no rosto de Tracie enrijeceu. — Mãe, eu vou te fazer uma pergunta e queria que você fosse sincera. Não suaviza, nem tenta aplacar a situação, tipo como você e o papai sempre fazem.


— Nem tenho certeza se sei o que significa “aplacar”.


— Mãe. Estou falando sério.


Ela realmente estava. Nancy podia ver isso, e isso a deixou nervosa.


— É sobre o divórcio — disse Tracie. — Papai... ele era… —


Ela fez uma pausa para se recompor:


— Havia outra pessoa?


Tracie Reed desapareceu no dia seguinte.







28 de dezembro, 1989



Tom Witter ensinava inglês na Universidade Cristã Camp Hill. Ele tinha quarenta e quatro anos no verão de 1989, quando Tracie Reed desapareceu. Ele ouviu sobre o caso em uma reunião da Vigilância do Bairro, três dias após o natal. As reuniões eram feitas duas vezes por mês na casa de Lydia Chow. Um representante de cada lar da Rua Keel deveria aparecer. Naquela noite, Tom fora o infeliz escolhido.


Bill Davis o encurralou na mesinha com os lanches. Bill morava numa enorme casa no endereço número quatro. Ele era mais ou menos do mesmo tamanho e formato de um urso. Connie — a esposa de Tom — costumava chamar Bill de vampiro social, porque se ele o prendesse em uma conversa, sugaria toda sua energia antes de partir para a próxima vítima.


— Você e a patroa ainda vão aparecer na nossa festinha de Ano-Novo? — Bill perguntou. — Vicky nunca recebeu seu bilhete confirmando presença.


— Não tenho certeza se vamos conseguir aparecer, Bill. Connie gostaria de uma noite tranquila em casa.


— Ela ainda está brava por causa do prêmio?


Tom não respondeu.


Na última festa de Ano-Novo de Bill e Vicky, ele havia distribuído prêmios feitos à mão para todos que compareceram. Tom foi nomeado “O cara mais esperto da Rua Keel”, um título que ele aceitou com pouquíssima humildade. Mas Connie, por outro lado, ganhou o prêmio de “Melhor Bunda”. Ela foi rápida em responder, que, por mais que o prêmio estivesse tecnicamente correto, Bill tinha ignorado suas verdadeiras qualidades: inteligência e senso de humor.


Bill correu os olhos pela sala de reunião e suspirou:


— Como se chama aquele espacinho entre o cu e as bolas? — Ele perguntou.


— Períneo — respondeu Tom.


— Períneo. — Bill enrolou a palavra na ponta da língua. — Essas reuniões são tão inúteis quanto um períneo.


— Você poderia ter dito apêndice ou lóbulo da orelha, mas eu entendo.


Lydia, a anfitriã da noite, se interpôs entre os dois:


— Na verdade, o períneo é muito importante. — Ela disse. — Ele separa os cuzões dos paus moles, que é meio o que estou fazendo agora.


Tom conseguiu dar um meio sorriso. Bill deu uma gargalhada, seus olhos descendo na direção do traseiro de Lydia enquanto ela se afastava.


Lydia era uma mulher esbelta, de quarenta e poucos anos. Mantinha os cabelos presos em um rabo de cavalo, que balançava com cada um de seus passinhos rápidos. Ela vestia decotes profundos e saias curtas, e era conhecida por gostar de chamar atenção. Tudo aquilo significava que ela estava entediada, o que fazia dela a moderadora perfeita para uma reunião daquele tipo. Camp Hill era um lugar pacato, mas se um formigueiro aparecesse na cidade, Lydia poderia fazê-lo parecer uma montanha.


— Preciso de todos na sala — declarou, em voz alta. — Estamos prestes a começar.


Tom e Bill fizeram o que foi solicitado.

Toda a mobília na sala havia sido afastada para dar espaço às três fileiras de cadeiras de plástico. A maioria dos presentes já estavam sentados, com níveis variados de entusiasmo. O marido de Lydia, Rob, estava na última fileira, chacoalhando um copo com vodca tônica e tentando ao máximo ficar acordado. Ellie Sipple, da casa número seis, sentou na frente, clicando repetidamente uma caneta. Ao seu lado, estava Donnie Hines. Ele tinha seu próprio negócio imobiliário e estava prestes a casar pela terceira — ou seria quarta? — vez.


Tom encontrou uma cadeira no meio. Bill sentou na fileira atrás dele. Lydia foi até a frente da sala e, na falta de um martelo e uma bancada, bateu palmas. Com força.


— Bem-vindos, membros da Vigilância do Bairro da Rua Keel. — Ela disse. — A data é vinte e oito de dezembro, Ellie irá fazer as anotações, e agora iniciamos a sessão.


Ela pausou por um segundo como se esperasse aplausos. Não houve nenhum.


— Primeiro item da pauta, ainda precisamos de mais assinaturas na petição para o Conselho construir um quebra-molas na Avenida Johnson. Eu sinto que devo frisar o quanto isso é importante. Aquela rua virou um ímã de barbeiros, e é só uma questão de tempo até que o bichinho de estimação, ou que Deus me livre, o filho de alguém, seja atropelado.


O marido de Lydia bocejou da última fileira.


— Estou te mantendo acordado, Rob? — perguntou.


Houve algumas risadas baixinhas do público.


— Próximo item, recebemos uma denúncia de um arrombamento no Monte Eliza. Um agressor desconhecido quebrou a janela de um veículo de trabalho e fugiu com mais de trezentos dólares em ferramentas. É um bom lembrete para deixarmos nossos carros nas garagens durante a noite, isso evitaria algumas manchas desagradáveis no asfalto. Sim, Gary, eu estou olhando para você.


Gary Henskee, da casa número nove, dirigia um Mitsubishi Scorpion 1979 que estava eternamente vazando óleo na entrada de sua garagem.


— Não acho que meu carro esteja sob sua jurisdição, Lydia — disse Gary.


— Ora, vamos, Gary, cada um faz a sua parte na limpeza. Enquanto eu estou te enchendo, você ainda não trocou as luzes da varanda. Uma rua iluminada é uma rua segura. E eu sei o que todos estão pensando. Meu ditado não rimou. Mas a gente faz o que pode.


Norma Spurr-Smith, do número oito, pigarreou.


— Certo — disse Lydia, aproveitando a deixa. — O anão de jardim da Norma ainda está desaparecido. Se alguém tiver qualquer informação, por favor, fale com a Norma depois da reunião.


Bill deu um tapinha no ombro de Tom e sussurrou:


— O que eu te disse? Inútil como um períneo.


— O terceiro e último item da pauta é algo grande — falou Lydia. — Ellie, você se importa?


Ellie Sipple colocou sua caneta atrás da orelha e ficou em pé. Ela abriu uma pasta de papel Kraft, pegou uma pilha de fotocópias e as distribuiu entre todos.


Tom imaginou que seria uma lista atualizada dos telefones de contato ou instruções de como cortar a grama de forma perpendicular. Mas era uma foto colorida de uma jovem de cabelos cacheados e olhos escuros. A garota estava sorrindo. Um sorriso genuíno, feliz. Tinha fones de ouvido pendurados ao redor do pescoço — do tipo que se encontraria preso em um Walkman — com uma tira de fita adesiva vermelha segurando um dos fones.


Embaixo da foto havia a legenda:


Tracie Reed, dezessete anos, vista pela última vez em sua casa na Rua Bright, em Camp Hill, na sexta—feira, oito de dezembro de 1989. Se você viu esta garota, sabe de seu paradeiro, ou tem qualquer informação que possa ajudar, por favor contate o número abaixo ou digite zero zero zero.


AJUDE A TRAZER TRACIE PARA CASA!


Tom fitou o rosto da menina, e não escutou o que era dito pelo resto do grupo.


— Ela sumiu há quase três semanas. — Lydia disse. — A Rua Bright é logo atravessando a floresta.


A floresta local fora apelidada de “Lugar Selvagem”. Ela formava uma barreira natural entre as vizinhanças, não era especialmente grande, mas era densa. Havia mais ou menos um quilômetro de um lado ao outro, e meio quilômetro para atravessar. As árvores — na maioria árvores-do-âmbar — eram muito próximas entre si e emanavam vida animal. As casas ao lado da de Tom tinham contato com o Lugar Selvagem por trás, com pequenas cercas que as separavam da floresta.


— Está tudo bem, Tom? — Lydia perguntou.


Ele deveria estar com alguma expressão estranha, porque ela o encarava. Aquilo não era incomum. Tom tinha síndrome de Tourette. Quando as pessoas ouviam aquilo, imaginavam alguém gritando “porra caralho filho da puta” no meio do mercado lotado, ou dentro do ônibus. Mas a maioria dos casos — como o de Tom — era mais sutil: tiques, espasmos e pequenos gestos involuntários. Tom piscava rapidamente, fazia sons estranhos com a garganta e, às vezes, seu pescoço fazia um movimento da esquerda para a direita. Mesmo assim, com o passar dos anos, ele aprendeu a esconder a maior parte dos sinais. Ele poderia sufocar os tiques e só deixá-los sair quando estava sozinho. Mas, às vezes, se estivesse particularmente ansioso ou estressado, eles se tornavam incontroláveis.


— Estou bem — disse ele. — Mas eu conheço essa menina. Ela estava em minha aula de literatura.


O rosto de Lydia se iluminou:


— E como ela era?


— Eu não lembro de muita coisa sobre ela — respondeu.


Lydia seguiu:


— Bem, a polícia não faz ideia de onde ela está, então a família está pedindo ajuda do público — no caso, nós. Vamos ser sinceros, aqui é Camp Hill, então a possibilidade de termos um assassino de crianças à solta é bastante improvável. Conhecendo garotas da idade dela, ela deve ter escapado com algum menino para fazer sexo desprotegido. E certamente será breve. Mas, mesmo assim, devemos nos manter atentos a qualquer atividade suspeita.


Cheree Gifford, a moradora da casa com a porta azul de número quatorze, perguntou: — Que tipo de atividade suspeita?


— Estranhos andando pela área, veículos misteriosos, qualquer coisa fora do comum. No meio tempo, eu vou precisar que alguém coloque esses cartazes pela vizinhança. Eu faria isso, mas estou ocupada com a petição do quebra-molas da Avenida Johnson. Agora, todos nós sabemos o que acontece quando eu peço por voluntários. A pobrezinha da Ellie é a única que levanta a mão e fica com todo o trabalho.


— Eu não me importo, de verdade — disse Ellie Sipple.


Enquanto a ignorava, Lydia falou:


— Tom? Que tal você?


Ele ergueu o rosto.


— Eu?


— Como professor dela, você obviamente tem uma ligação com essa garota, e bastante tempo livre.


Tom não poderia discordar. O colégio estava em hiato até depois do natal. Tom tinha cinco longas semanas de verão à sua frente.


— Então? — Perguntou Lydia. — O que me diz?


O que ele poderia dizer?



Christian White é um autor e roteirista australiano cujos projetos incluem o longa-metragem Relic . Criança Perdida foi seu primeiro livro e um dos romances de estreia mais vendidos da Austrália. Um rascunho inicial deste romance ganhou o Prêmio Literário do Premier vitoriano de 2017 por um manuscrito não publicado.

Clickbait (Netflix), série de televisão cocriada por Christian com Tony Ayres ( The Slap ), estrelada por Adrian Grenier ( Entourage ), foi lançada pela Netflix em agosto de 2021 e foi direto para o primeiro lugar em 41 países. O aguardado segundo livro de Christian, A Esposa e a viúva , foi publicado pela Affirm Press em 2019 e se tornou um best-seller instantâneo.

O cenário de seu terceiro romance Um Lugar Selvagem é modelado na área da Península de Mornington, onde ele cresceu. Hoje ele mora perto de Balnarring, Victoria.

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