• Beatriz Faria

Roi... Conto novo, né? |8


“Quando ela quisesse”

por Diego F.




A última coisa que eu ouvi foram os pilares de madeira despencando sobre a entrada da mina, depois disso ficou um puta zumbido irritante no meu ouvido. Era muita coisa para processar em tão pouco tempo... Todos na fortaleza estavam mortos quando chegamos. Nunca poderíamos ter imaginado que ela era capaz de tudo aquilo... Foi uma surpresa e tanto.

Minha audição mal tinha voltado quando meus outros dois colegas começaram a discutir sobre como iríamos resolver aquilo. Um deles queria ficar para tentar matá-la, já o outro... Preferia fugir enquanto ela ainda não tinha visto nossos rostos.

– Os escombros selaram a entrada da mina. – um deles falou – E eu não acho que ela vai conseguir atravessar as paredes de pedra. Não vamos ter outra chance como essa, então é melhor derrubar a montanha inteira em cima dela.

– E pra isso vamos usar toda a magia que ainda temos... E nem vamos ter certeza de que ela morreu. – o outro retrucou – É melhor fugirmos e avisarmos à Leoa o que aconteceu.

– Somos magos, porra! Estamos em três, podemos acabar com ela! – o primeiro se exaltou um pouco, e com razão, mas ela era perigosa demais para sequer pensarmos em agir sem cautela.

– E quantos dos nossos morreram na fortaleza? – abri bem os braços e o indaguei com raiva, ele queria fazer o certo, mas pelos motivos errados – Não podemos levar isso pro lado pessoal, ou vamos acabar fazendo burrice.

– E o que você sugere então? – o segundo perguntou, mas pelo seu olhar imaginei que ele queria apenas que eu reforçasse o seu plano.

Soltei um suspiro breve e abaixei a cabeça antes de responder, aquela não era a melhor hora para nos envolvermos em discussões tão fúteis.

– É melhor irmos até a Leoa, se existe alguém capaz de parar a merda que criamos... Esse alguém é ela, somente ela.

Nos encaramos em silêncio por um tempo, avaliando uns aos outros. Nossas túnicas negras estavam cobertas de sujeira, boa parte dela veio da poeira que levantamos para selar a entrada da mina, a outra parte vinha do sangue dos colegas que tivemos que deixar para trás.

– E os outros? – perguntei assim que vi o sangue nas pernas de Elgard, o mago que nos propôs a ideia de fugir.

– Mortos, na melhor das hipóteses. – Denver, o outro mago, respondeu antes Elgard abrisse a boca – E eu já vou logo avisando que não vou fazer a burrice de entrar aí só pra confirmar uma coisa que já sabemos.

Não houve discussão nisso, dessa vez todos nós concordamos.

Apesar da pressa de Elgard, tomei um tempo para respirar, iríamos caminhar até o vilarejo de Strebor, mas primeiro teríamos que atravessar a floresta de pinheiros enormes que nos cercava.

Eu não quis demorar muito, então me levantei poucos segundos depois, queríamos partir o mais rápido possível. Contudo, assim que demos as costas para os escombros, um grito fraco e nada familiar veio da pior direção possível.

– Vamos embora, já está morto. – Elgard sequer olhou por cima dos ombros.

Denver, por outro lado, ao menos hesitou, mas também não fez nada.

– Vamos continuar seguindo a trilha, Kallesh... Ela vai morrer de fome presa aí dentro de qualquer forma. – Denver voltou a caminhar logo em seguida, evitando fazer contato visual quando passou por mim – É melhor isso do que arriscar deixá-la escapar.

Não estávamos sendo covardes, era apenas a escolha mais esperta a se fazer, afinal não tínhamos chances. Mesmo assim, deixei os outros irem na frente, eu queria ao menos ter a chance de olhar nos olhos dela antes de deixá-la para morrer. Então fiz a escolha mais idiota da minha vida; decidi voltar aos escombros.

Denver havia conjurado uma pequena explosão controlada para fazer com que tudo desabasse, ainda assim, restou uma pequena fresta, de onde ouvimos o grito.

Claro que eu não tinha coragem de enfiar a cara naquela merda, mas o fiz assim mesmo. Não enxerguei merda nenhuma já que minha cabeça tampava a passagem de luz, contudo, em compensação senti um vento refrescante vindo da caverna e também não escutei mais nada.

Eu não quis demorar, ou acabaria me distanciando demais dos outros, então logo me dei por satisfeito e me virei para voltar. Ela deveria estar longe da entrada, mas não faria diferença caso estivesse bem ali. Ela podia ser mais forte que uma pessoa comum, mas não era uma maga, ela não conseguiria escapar dali sem o uso de magia e isso me deixava bem mais tranquilo.

– Espera! – mais uma vez, para o meu infortúnio, ouvi outro grito vindo da caverna, dessa vez pude reconhecer que era uma mulher.

Eu não ia voltar, era mais do que óbvio que era uma armadilha.

– Que merda! Eu te vi enfiando a cara no buraco! – o som da voz começou a aumentar e logo eu pude escutar o som dos passos dela também.

Não levou mais do que alguns segundos para a mulher chegar à mesma fresta em que me viu. Estava certo de que ela era uma maga, mas eu não a conhecia, talvez ela estivesse com o segundo grupo.

– Eu tô esgotada, porra! Me tira logo daqui!

A maga, de pele morena e olhos castanhos, não me era nenhum pouco familiar, mas ainda assim me fez hesitar. Eu não queria deixá-la para trás.

– Não posso arriscar... Temos que avisar a Leoa do que aconteceu. – naquele momento eu me odiei como nunca, levantei meu capuz e abaixei a cabeça para esconder meu rosto, eu não queria olhar nos olhos dela, então preferi dar as costas.

Mas ela continuou gritando por ajuda, ela não era muito educada com as palavras, porém, eu sabia que ela estava assustada, bem mais do que eu poderia estar.

Olhei um pouco mais para frente e vi que os outros dois sequer hesitaram dessa vez. Minhas pernas tremeram e suor começou a escorrer pela minha testa, eu queria fugir com todas as minhas forças, mas era covardia demais até para mim.

Contrariando todos os meus instintos, voltei correndo para os escombros.

– Não tenho magia o suficiente pra abrir caminho! – ela já tinha me dito antes, mas eu imaginava o terror que se passava na cabeça dela, eu teria ficado surpreso caso ela estivesse calma e sã.

– É melhor se afastar, vou erguer as pedras no meio, aí você passa. – tentei ficar calmo para ver se ela também ficaria, mas não pareceu dar muito certo.

Ela concordou repetidas vezes com a cabeça e deu cinco passos para trás. Eu já estava acostumado a erguer coisas com magia, então, de certa forma, me senti confiante de que poderia salvar ao menos ela.

Minha magia ergueu as pedras facilmente, mas a maga não estava com muita vontade de esperar. Seus olhos grandes e arregalados me causavam um sentimento de urgência.

Eu não levaria mais que vinte segundos para abrir uma passagem, mas outra coisa alcançou a maga antes que eu pudesse ajudá-la.

Um suspiro de susto foi o último som que ela fez antes de ter a cabeça empurrada contra a parede rochosa à sua direita.

Deixei as pedras caírem com o susto que levei, eu não tive chance de ver quem tinha acertado a maga, mas eu acho que a resposta já era óbvia. Senti uma terrível falta de ar quando olhei para a fresta novamente. O buraco estava um pouco menor, mas eu tinha certeza de uma coisa, ela estava bem ali e eu só conseguia ver seus olhos.

Seus olhos negros e carregados de ira já eram o suficiente para me assustar, mas ela tinha perdido a chance de escapar pela passagem que eu estava abrindo, só para poder matar uma de nós... Ela estava agindo puramente por instinto agora, e isso me dava mais medo do que qualquer olhar de merda que ela lançasse para mim.

– Não precisava ser assim, Ymira. – eu tinha talento para fingir calma em minha voz, ainda que meu corpo dê-se sinais claros de que eu estava me borrando – Te criamos como uma de nós e você nos apunhalou pelas costas... – com certeza eu não deveria ter dito isso, e tive certeza desse fato quando a vi cerrando ainda mais os olhos, eu só tinha a atiçado mais ainda – Você pode ser forte o quanto quiser, mas não vai erguer essas pedras, não sem magia.

Ela cerrou ainda mais os olhos, mas não disse nada.

– Kallesh! – infelizmente, ouvi outro grito vindo além da escuridão da caverna, era outro mago, o velho Bertran, nosso supervisor.

Naquele momento senti minha espinha ficar fria como nunca, a última coisa que vi foi Ymira suavizando os olhos e sumindo na escuridão. Ela usaria Bertran para abrir a passagem para ela, não importasse o quanto tivesse que bater nele.

Mas isso levaria tempo, então finalmente tomei uma decisão esperta e voltei correndo para Elgard e Denver, tínhamos que sair dali ainda mais rápido do que imaginávamos.


II

Conseguimos cavalos quando chegamos em Strebor, um vilarejo que ficava entre duas estradas principais em uma grande planície. Quando digo que “conseguimos”, quero dizer que roubamos assim que botamos os pés lá, mas dada a situação em que estávamos os fins justificavam os meios.

Como sempre, discutimos sobre o que era melhor a se fazer. Poderíamos ter sido mais discretos e criado um rastro falso para Ymira, mas demandaria um pouco mais de tempo.

Preferi evitar participar das discussões entre Denver e Elgard, eu já tinha meus próprios problemas para lidar. A cena daquela maga tendo o rosto empurrado contra as rochas se repetiu inúmeras vezes na minha cabeça, a culpa de Ymira estar agindo daquela forma era nossa... Deveríamos ter lhe contado a verdade desde o início... E agora era tarde demais para isso.

O melhor que eu podia fazer era continuar galopando para o oeste, rumo à Rellaen, a cidade onde a Leoa estava tratando de negócios.

Já era noite e estávamos há um dia adiantados em relação à Ymira, isso na melhor da hipóteses, mesmo assim não queríamos parar por nada nesse mundo, o problema era que os cavalos talvez não aguentassem manter aquele ritmo.

Conseguimos galopar direto até anoitecer, mas ainda seriam algumas horas de viagem até nosso destino. Contudo, assim como os cavalos, nós não aguentávamos mais toda aquela viagem sem descanso e comida, então decidimos parar por uma hora e nem um segundo há mais.

Paramos na beira da estrada mesmo, pouco antes de uma encruzilhada com uma árvore enorme no meio. Escolhemos aquele local porque era bem aberto, não seria fácil alguém nos pegar de surpresa.

Denver foi o único a descer do cavalo e, usando sua magia, criando uma fogueira no processo. Nitidamente, ele era o mais cansado entre nós.

Elgard deu uma boa olhada aos arredores, mas não viu nada demais, apenas uma carruagem vinda do leste, pela mesma estrada que viemos.

– A carruagem. – Elgard me encarou com um olhar apreensivo em sério.

– É aberta, não tem como ela se esconder ali... Talvez se ela se deitar, mas... O cocheiro iria perceber só de olhar para trás. – afirmei com um pouco de certeza – O rosto dela tava sujo de sangue da última vez que a vi... Ninguém com bom senso vai oferecer ajuda pra ela

– Não deveria ter voltado lá, Kallesh, só a deixou mais puta ainda. – Elgard, apesar de mais novo que eu, me repreendeu com um olhar exalando maturidade.

Preferi o silêncio como reposta, eu estava errado e não tinha porque discutir isso. Por sorte, meu colega decidiu não me incomodar mais com isso, ele preferia que eu o ajudasse. Elgard ainda suspeitava daquela carruagem e ele não ia sossegar até ver com seus próprios olhos que estava tudo bem.

Então esperamos um pouco na beira da estrada, atentos como raposas.

– Magos? – o cocheiro, um senhor de idade com um bocado de dentes faltando, cerrou os olhos castigados pelo tempo e inclinou a cabeça para frente.

– Queremos ver sua carruagem, se não se importar. – Elgard não desceu do cavalo, ele gesticulou com a cabeça e instruiu Denver a ir verificar, enquanto eu me posicionava logo atrás para defendê-lo caso necessário.

O senhor não protestou, ficou claro que ele nos temia no momento em que reconheceu o brasão em nossas túnicas.

Denver, com uma careta emburrada, foi até a carruagem e não viu ninguém, exatamente como eu disse.

– A carruagem é bem simples, não tem como alguém se esconder nela, Elgard. – cruzei os braços e encarei meu colega, eu queria ver a expressão dele ao saber que estava errado.

Contudo, um som abafado veio de debaixo da carruagem, como se alguém tivesse caído com as costas no chão.

Mal tive tempo de me virar quando ouvi o som de algo cortando o ar, era um arco. Uma flecha perfurou o pescoço de Denver antes que ele pudesse recitar qualquer tipo de feitiço de defesa, e o seu sangue espirrou no meu ombro.

Foi então que vi a silhueta de Ymira rolando para longe da carruagem, ela tinha se pendurado ali debaixo por sabe-se lá quanto tempo, tudo isso só para nos pegar de surpresa.

Elgard nem se importou e conjurou uma cortina enorme de fogo que incendiou a carruagem, o cavalo e o velho cocheiro de uma só vez.

Eu mal tive tempo de pensar na atrocidade que Elgard tinha feito, era simplesmente impossível não sentir calafrios sabendo que Ymira estava por perto, pronta para nos matar na primeira chance que tivesse.

As chamas cessaram tão rápido quanto começaram e Elgard não quis ficar para saber se tinha acertado Ymira, seu cavalo saiu em disparate para a estrada oeste e eu acabei ficando sozinho.

–... Puta merda... – essa foi, literalmente, a primeira coisa que passou na minha cabeça naquele momento, eu sabia que tinha que fugir e iria fazê-lo sem hesitar.

A fogueira que Denver havia criado era a única coisa que ainda iluminava a trilha, entretanto, seria burrice continuar seguindo pelo mesmo caminho que Elgard. De qualquer forma, me apressei para subir no maldito cavalo, foi quando vi a silhueta dela mais uma vez...

Ymira estava indecisa, sua cabeça, ora olhava para mim, ora para Elgard, e eu pretendia me aproveitar dessa distração para fugir, rumo à um bosque pouco distante dali.

Não ousei olhar para trás nem por todo dinheiro ou poder do mundo. Minha situação ia de mal à pior há cada segundo e eu já não tinha ideia do que fazer agora. Eu poderia tentar despistá-la no bosque, mas provavelmente seria outra enorme perda de tempo.

Foi quando enfim me lembrei.

Havia um tipo de ordem de cavalaria sendo formada em uma estalagem bem naquele bosque, talvez eu pudesse ter algum tipo de ajuda dos cavaleiros, não era a minha melhor ideia, mas era o que eu tinha no momento.

Então forcei meu cavalo mais um pouco e olhei para trás, vi a silhueta de Ymira correndo, por sorte, atrás de Elgard e não de mim. Nunca na vida eu tinha me sentido tão aliviado por não ter uma mulher correndo atrás de mim.

Era bom poder respirar aliviado por um tempo, embora eu a conhecesse o suficiente para saber que ela não ia demorar até conseguir pegar Elgard de surpresa, assim como ela fez com todos nós durante todos esses dias.


III

Os cavaleiros daquele lugar não eram exatamente o que eu esperava, não que eu fosse encontrar um exercito de elite, mas... Pedir ajuda à jovens fazendeiros com um sonho era um pouco desanimador. De qualquer forma, eles me deram comida quente, água e uma cama para dormir. Não era tudo do bom e do melhor, mas já era alguma coisa.

Eu esperei por Ymira na primeira noite, mas ela não veio... Então eu esperei na noite seguinte e na seguinte... E assim por diante. Eu mal tinha coragem de sair do meu quarto, afinal ela deveria pensar que eu estava rumo à outra cidade ou indo pra um lugar longe pra caramba...

A única coisa que me incomodava mesmo era a minha falta de coragem, eu poderia ter salvo a maga e poderia ter evitado aquela merda que Elgard fez com o velhote... Mas não o fiz.

Por cinco noites eu acordava no meio da madrugada, suando frio e com uma puta falta de ar e a primeira coisa que eu via era uma marcação, que contava há quantos dias eu estava ali... Provavelmente era coisa de um moleque que também estava se refugiando com aqueles cavaleiros, eu odiava aquele moleque.

Nem todos tinham um quarto só para si, por sorte eu fazia parte dessa pequena minoria, o que era bem conveniente, já que eu não queria ninguém vendo minhas paranóias no meio da noite.

Na noite do sétimo dia eu acordei novamente durante a madrugada, mas dessa vez não foi por medo de Ymira ou pela minha consciência pesada. Eram batidas na porta, apenas batidas.

Repeti para mim mesmo que não era ela. Ela não teria a educação de bater na porta, ou talvez tivesse e era essa dúvida que me dava um nó no pescoço. Mas eu era a porra de um mago! Seja lá quem fosse, eu poderia queimar vivo apenas erguendo a mão.

As batidas continuaram suaves e calmas. E eu, só com a roupa de baixo, apontei a palma de ambas as mãos para a porta, esperando que a pessoa desistisse, ou entrasse e fosse incinerada.

E então elas pararam subitamente e a porta se abriu logo depois.

Eu a vi entrando com calma no meu quarto, com ambas as mãos para cima, mas eu não ia cair nessa, de jeito nenhum.

Mas... Minhas pernas tremeram como nunca, ela tinha uma presença terrivelmente assustadora.

Ymira não disse uma palavra sequer, ela apenas apontou para a marcação ao lado da minha cama e, com passos lentos caminhou até ela. Claro que eu não a deixava chegar perto de mim, então eu sempre ia na direção contrária, me afastando sempre que possível.

Foi então que eu a vi tirando um giz de um de seus bolsos e fazendo outra marcação... Todo esse tempo... Não era o moleque quem as fazia.

Então ela jogou o giz para mim e eu me distraí, pegando-o no ar. Nesse curtíssimo intervalo de tempo, Ymira desapareceu do meu quarto.

Ela fez aquilo só para mostrar que poderia me pegar quando quisesse e não havia lugar no mundo que eu pudesse me esconder... No fim das contas ela me deixou viver para que eu sempre soubesse que ela estaria por perto... Ou talvez ela só quisesse me deixar louco.


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