• Beatriz Faria

Roi... Conto novo, né? |7


"Parece uma boneca”

por Daniel Henrique



Era uma noite fria de inverno.

O Gran Circo Carnivalle estava lotado. Era a primeira vez que Bárbara, uma menina de dez anos com os cabelos castanhos encaracolados e olhos cor de mel, ia ao local. Ela estava com seu pai, um homem de cabelos encaracolados como os da filha, porém grisalhos, e demonstrava grande animação para conhecer o tão falado circo.

— Papai, o senhor já veio nesse circo? — Perguntou a garota ao pai enquanto caminhava em direção à entrada.

— Já sim, filha. Eu fui com seu avô quando eu era criança. — Disse o pai enquanto segurava na mão da criança, com medo de que ela se perdesse dele devido à grande quantidade de pessoas que havia no local.

— Que legal! E você gostou? — Perguntou a garota com um sorriso em seu rosto. — Gostei sim, gracinha, mas algumas atrações me deixaram assustado. — Disse o pai, um pouco pensativo.

Eles estavam quase chegando à bilheteria, e dava para ver mais de perto a imensa lona vermelha que cobria o circo.

— Por que elas te deixaram assustado? — Perguntou a menina, um pouco duvidosa.

— Por nada, filha. Eu era uma criança de cinco anos. Todas aquelas luzas, fumaças, gritos... — ele deu uma pausa — aquilo foi muito chocante pra mim.

— Gritos? — A garota ficou um pouco assustada quando o pai disse sobre gritos que ele escutara lá dentro.

Ela tinha muito medo de monstros, e seus amigos haviam lhe contado histórias horríveis sobre aquele lugar.

— Sim, gritos dos palhaços fazendo brincadeiras com as crianças. — Esclareceu o pai.

— Eu gosto de palhaços.

— O papai tem um pouco de medo de palhaços, desde pequeno, meu amor.

— Nossa, mas você teve algum trauma com eles na sua infância?

— Acho que não, mas a cara deles me dá muito medo. — Disse o homem enquanto olhava assustado para um cartaz, retratando um palhaço, que estava na porta da bilheteria.

A conversa deles foi interrompida por um homem que estava vendendo ingressos.

— Posso ajudá-los? — Perguntou o sujeito enquanto os encarava com um sorriso em seu rosto. O homem tinha cabelos pretos compridos e olhos de mesma cor, seu corpo era grande e ele era alto.

— Pode sim. Quero dois ingressos, um pra mim e outro para a minha filha.

— Quantos anos ela tem? — Perguntou o homem, ainda mantendo o sorriso. O pai da garota estranhou a pergunta.

— Eu tenho dez anos. — Disse a menina, antes mesmo de o pai responder.

— Você é bem nova... — Disse o sujeito ao esbugalhar os olhos para olhar a garota.

— Os meus ingressos, por favor? — Pediu o pai da garota, visivelmente bravo e desconcertado com a situação.

— Claro. Estão aqui. Tenha uma ótima atração... — O homem entregou os ingressos vermelhos e pretos nas mãos do pai da garota.

Quando eles entraram, sentiram um cheiro ruim, algo que parecia ferrugem.

O local estava muito cheio, o chão era a terra de onde se instalara o circo, tinha poucas luzes e sua lona era toda vermelha, mais parecendo um circo dos horrores do que um circo para crianças.

Eles só conseguiram achar lugares ao fundo, bem afastados do picadeiro.

De repente, todas as luzes se apagaram, e só ficou acesa a luz do palco.

— Senhoras e senhores, sejam muito bem-vindos ao Gran Circo Carnivalle!

Ouviram-se gritos e aplausos da multidão que estava no local.

— E, como nossa primeira atração, quero chamar ao palco, elas, as garotas que parecem bonecas, de tão lindas que são. Venham aqui, as “Bambole Umane”!

O público que estava assistindo ficou espantado ao ver que entraram três garotas, crianças, que eram idênticas a bonecas, pareciam até bonecas humanas. Muitos aplaudiram e outros ficaram espantados com a perfeição que possuíam. As pessoas que estavam na primeira fileira até gritaram.

— Vocês devem estar se perguntando, mas o que elas irão fazer? Além de lindas e perfeitas, essas belezuras também são ginastas. Desçam as cordas.

Num repente, desceram três cordas, e o teto do circo começou a brilhar. Nele, imagens de círculos brilhando e girando.

As garotas subiram na corda e começaram a fazer os malabarismos. Era algo tão incrível, como uma criança daquela idade conseguiria fazer algo assim?

As pessoas começaram a olhar para as garotas e as imensas cordas em que elas subiam. Aos poucos, ficavam hipnotizadas com as imagens que estavam passando no teto daquele lugar, exceto por Bárbara, que ficou apavorada quando viu o homem da bilheteria olhando para ela, perto de uma cortina que estava no palco.

Mas, subitamente, algo aconteceu, o braço de uma das garotas caiu, e Bárbara deu um grito.

As luzes, em instantes, foram apagadas, e todos ficaram no escuro.

— Senhoras e senhores, perdoem-me pelo ocorrido. Tivemos um imprevisto com as nossas meninas, e elas tiveram que sair de cena, mas logo voltaremos com a nossa atração.

As luzes se acenderam novamente, a multidão nem tinha percebido o que, de fato, havia ocorrido, afinal, eles estavam todos hipnotizados.

Mas havia algo de estranho.

Bárbara desaparecera. Seu pai sequer escutara seus gritos antes de ela desaparecer.

— Me solta! Socorro! — Gritava a garota, mas ninguém a escutava.

— Pode gritar, docinho, ninguém vai te ouvir. — Disse o homem que a carregava em seus ombros.

Bárbara tentou chutá-lo, mas essa tentativa foi em vão. Ele segurou seus pés.

O homem a levou para seu trailer, que estava totalmente sujo de sangue por dentro, e a amarrou em uma corrente. Bárbara tentava gritar, mas era inútil. O homem tapou sua boca com uma fita e pegou um serrote em sua gaveta. Os gritos de Bárbara o deixaram ainda mais animado com o que ele estava querendo fazer.

Com o serrote em mãos, ele começou a cortar seus braços e pernas. Bárbara gritava, chorava de dor, mas, mesmo assim, ele não parava, até gostava de seu sofrimento. Em seguida, colocou próteses robóticas, porém idênticas às das bonecas, no lugar de suas pernas e braços.

Bárbara começou a chorar, não sabendo a razão de estar lhe acontecendo aquilo, e desmaiou de dor.

No meio da noite, acordou em um susto.

O homem estava com um bisturi próximo ao seu olho, mas fita não estava mais em sua boca. Bárbara deu um grito ensurdecedor.

As pessoas, que ainda estavam hipnotizadas, acordaram devido ao grito de Bárbara, mas era tarde demais.

Ao estranho som, proveniente de um Kalimba, uma nova atração começava.


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