• Beatriz Faria

Roi... Conto novo, né? |4

'Você conhece a magia?'

por M. E. Paschoal


— Você conhece a magia? — perguntou a chama.

— Não. É algo ou alguém? — respondeu a gota.

— É claro que é alguém — proclamou o ar. — Se faz esse tipo de pergunta é

porque nunca a conheceu.

— Talvez você tenha conhecido. Mas não se lembra — interpôs-se a rocha.

— E por que eu deveria conhecê-la? — questionou a gota.

— Por quê?! — O ar estava indignado.

— Porque permanecer na ignorância, alheia à magia, seria uma vida sem sentido

para você, gota. Para todos nós, em verdade. — A chama era sempre muito eloquente e

incisiva.

— De fato — respondeu a rocha.

Gota se sentia muito perdida e sem forma, quando a chama, a rocha e o ar

iniciavam essas conversas absurdas. Por que tinha que ser a manipulável? Por que não

podia ser esclarecida como a chama?

— Podemos falar de outra coisa? Não gosto de discutir assuntos que não

domino.

— Oh, mas isso não é uma discussão, gota — tornou a chama.

— Magia não está aberta para discussões. É algo inquestionável. — O ar, na

maioria das vezes, era chato e presunçoso. Gota revirou os olhos.

— Talvez esteja, ar. Mas somente para aqueles que a conhecem — concluiu a

rocha.

— Se eu não a conheço é porque não preciso ou porque ela não quer que

sejamos apresentados. Fim de pa—

— Não continue essa linha de raciocínio tola, gota. — Chama era enérgica.

— Se seu conhecimento é pouco deve, sim, se colocar na posição de aprendiz.

Não seja arrogante. — Ar era pedante.

— Diga-me, gota, estaria disposta a ouvir uma história? — Rocha era receptiva.

Não era que gota era arrogante. Era confusa e instável. Sentia-se subjugada

quando falavam com ela, tinha a impressão de que sempre tentavam moldar sua

identidade, impondo-lhe como deveria pensar, como deveria ser, como deveria agir. Era

frustrante. Odiava ter que ceder. Porém, ouvir uma história parecia inofensivo. Poderia

se entreter.

— Está bem. Mas quem irá contar?

— Chama, é claro. — O ar não parecia satisfeito.

— Chama, pois sabe ser objetiva e um tanto menos prolixa que o ar — disse a

rocha.

— Isso é verdade — disse a gota.

— Shh, silêncio agora, criança — disse a chama. Gota estranhou que ela

colocasse seus óculos de lentes grossas, se não iria ler coisa alguma. Mas chama era

muito dona de si e gostava de se expressar das mais variadas formas. — Todos prontos?

— Estamos — proclamou a rocha.

O escuro se faz presente onde os quatro irmãos se encontram. Conhecem a luz e

a vida, mas vivem apartados dos fluxos da realidade. A luz da chama se reflete na gota e

na rocha. Sabe-se que o ar está presente, pois a chama continua a bruxulear, e isso não

aconteceria se o ar decidisse ir embora — o que ele jamais faria.

— Magia é nossa criadora. Isto é, algo que poderíamos chamar de mãe. Mas

magia também foi criada a partir de nós quatro, nasceu de nosso âmago, dada à luz por

um parto muito difícil, eu me lembro. Assim como nós nascemos de um parto difícil,

magia sofreu muito para nos dar à luz, ela nunca irá esquecer. Magia nos gera e nós

geramos magia. Nunca saberemos quem foi o instante primeiro de nascimento, nós ou

magia. Talvez o instante primeiro sequer exista. Nascemos a todo instante… Mas nunca

morremos. Esse é o maior mistério de todos. Magia está em nós, como se nos

pertencesse. E nós estamos em magia, como se pertencêssemos a ela.

— Eu gosto da ideia de progenitora e progenitores — disse a gota.

— Ora, você usando palavras difíceis, gota. Quem diria — disse o ar, ácido.

— Continuando — disse a chama, encarando-os por cima dos óculos. — Magia

nos utiliza para conjurar cada aresta do infinito e cada segundo da eternidade. E nós

utilizamos a magia para sustentar o infinito e a eternidade. Origem e finalidade.

Finalidade e origem. Nós e magia somos esses dois fluxos, coexistimos ao mesmo

tempo, mas não em linhas paralelas, tampouco em linhas cruzadas. Somos a mesma

linha de existência, como dois em um. Mas cada parte do dois é uma linha única de

existência.

— Talvez não seja uma linha, chama. Talvez seja um círculo — pontuou a

rocha.

— Você pode estar certa, rocha. Um círculo é uma linha que se ondulou e ligou

suas duas pontas, uma na outra. Um novo sentido dentro de um sentido. Um novo

sentido que é, na verdade, idêntico ao anterior.

— Compreendo — disse a gota.

— Deveras? — desconfiou o ar.

Mas subitamente a gota caiu no chão, como se despencasse de uma nuvem.

Ploft. E os três irmãos suspiraram, enfastiados.

— Mais uma vez — disse o ar.

— Minha paciência está se esgotando, devo confessar — disse a chama.

— Infelizmente não podemos culpá-la por ser tão instável. Não podemos

interromper seu fluxo, que se renova a cada instante. A consciência da gota é diferente

da nossa. Ela nasceu, nasce e nascerá assim. Mutável.

— Nascemos a cada instante, mas nossa consciência, não. Agora, nossa irmã

gota, nunca é a mesma.

De algum lugar acima, uma gotinha surgiu diante da chama, do ar e da rocha. Já

muito desperta, ciente de uma verdade ou outra… Mas ignorando a mais importante de

todas.

Então chama, que não gostava de perder tempo, perguntou:

— Você conhece a magia?



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