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Existem mais escritoras ou escritores?

Seguindo o tema do nosso PODCAST da semana "Escrita de mulherzinha" nossa escritora Beatriz Faria destrinchou o assunto em um artigo super interessante. Vamos acompanhar?






Eu posso te dar a resposta aqui e agora, mas não teria tanta graça assim. Então se segura um pouquinho na cadeira.

O mercado editorial existe desde sempre - quero dizer, desde a Idade Média os folhetins das Fórmulas Galênicas estavam circulando e sendo distribuídos pelas cidades -, mas nem sempre o alvo foi a publicação de autoria feminina, até porque o direito de estudar foi conquistado tardiamente. A educação feminina no Brasil teve início em 1867 - o estudo mesmo, não estou falando dos ensinos elementares, aulas de costura e etc - apenas em colégios particulares e ensino superior em 1879, com paus e pedras como cortesia. “Parabéns, você é uma mulher na faculdade. Não se esqueça de pegar o seu vale discriminação-e-preconceito gratuito na matrícula”.

Desse modo, restrita para classes altas e detentores de poder socioeconômico, além de que sempre retornava à questão: mulheres na escola, por quê?

Nem preciso dizer o motivo.

A atuação da mulher entre os séculos XV e XX se resumia a cuidar da casa em tarefas domésticas, tomar conta dos filhos, cozinhar as refeições diárias e se preocupar em só falar o suficiente, nada de tom de voz elevado. Claro, sempre respeitando as ordens do marido. Lazer nem se fala.


A limitação da mulher não era restrita à literatura. No teatro, a mulher não podia pisar no palco do Teatro para encenar. Em papéis femininos, atores eram contratados” C. B. Alves, autora de Onde está Lúcia?, complementando mais uma vez a ideia de que a visão da mulher nas mais variadas artes era feita e produzida pelo homem.


Apenas em 1880 que as mulheres puderam ingressar no sistema de ensino público no Brasil, oito anos antes da abolição da escravidão e nove anos antes da proclamação da república. Um pé ali para liberar os escravos, outro para sair de uma monarquia e um dedinho sobre os direitos feministas. É, foi exatamente no meio dessa confusão toda que a nossa história começa.

Se formos pensar em contexto global, Mary Wollstonecraft já dizia umas coisas parecidas na Inglaterra em 1792. Vamos dar um desconto pela demora da mensagem pelas embarcações. Tá desculpada, Mary. No final, acabou dando certo. Os escritos de Mary chegaram para Nísia Floresta, a primeira feminista-escritora-e-com-super-poderes do Brasil e a bola de neve duplicou de tamanho.

Enquanto essa batalha toda acontecia, os escritos de Sócrates, Pero Vaz de Caminha e tantos outros autores já estrelavam nas prateleiras.

Em um contexto onde só autores homens escreviam, o papel da personagem feminina nas histórias também era limitado.

De 1920 em diante, (os textos literários) são extremamente machistas. A mulher do futuro era muito estereotipada [...] Você tem diversas personagens femininas sempre descritas por homens, idealizadas por homens. Parei para pensar e não conseguia pensar numa obra em que lia uma personagem feminina passando por uma tpm, por exemplo. É a mulher idealizada que não representa a realidade. Nos clássicos literários da língua portuguesa, são poucas mulheres vistas e quando há, são vistas por homens, pela mente masculina” - Murillo Pocci, autor de A Casa.

Muito bem, mas e as escritoras?

Ao redor do mundo, muitas mulheres pegaram as suas canetas e começaram a escrever, a fazer história. Essa euforia não durou muito porque as editoras não se interessavam em publicar mulheres, retornavam para a mesma questão: mulheres escrevendo livros, por quê? Pois bem, a gente queria que queria. E aí surgiram os primeiros artifícios: pseudônimos. Sob o nome George Sand, Amandine Dupin vendeu mais de oitenta livros, explodindo por toda a França. Considerada como uma das primeiras feministas francesas e como uma das que desafiaram o preconceito que empurrava autoras para longe de atividades criativas e literárias. Assumir um nome masculino parecia necessário para ganhar a notoriedade, mas lá em cima rapidamente se tornou palco para outras figuras também. A brasileira Nair de Tefé assinava suas obras como Rian, seu nome de trás para frente. As irmãs Bronte também não foram exceção, mesmo quando suas obras, como O Morro dos Ventos Uivantes, poderia ser tombado como patrimônio mundial - assino embaixo -, começou na frente de um nome masculino.


Autoras têm que colocar siglas em seus nomes para poder desviar do preconceito, para não sofrer esse pré-julgamento. Vemos muitas pessoas se afastando de textos, obras, simplesmente escritas por autoras. E quando você descobre o quanto é um livro maravilhoso, como ficam os seus pré-conceitos?” - Juliana Cargnelutti, estudante de Jornalismo pela UFMT. Os pré-julgamentos não se resumiam apenas à Literatura, muito menos à época - “Numa roda de conversas, sobre mulheres no esporte, uma das questões era o porquê de mulheres serem chamadas para conversar sobre jornalismo quando o tema é jornalismo feminino e não só jornalismo e ponto final

Com muito esforço, as barreiras foram ao chão em mais uma conquista feminina. Assinando com os próprios nomes na maior parte das vezes, uma nova equipe de autoras surgiu. Então, a escrita feita por mulheres começou a existir. E junto, um apelido: escrita de mulherzinha.

“(a definição de) Literatura de mulherzinha vem pelo viés do homenzinho […] A gente ainda pertence a uma sociedade patriarcal, machista, independente de todas as conquistas. Tudo que se refere à mulher, ao feminino, acaba sendo definido por um homem e tudo que é muito diminutivo costuma ser muito pejorativo e na literatura não é diferente” - Chris Sevla, autora de Como não me apaixonar por você.


A literatura feita por mulheres é Literatura feminina e a feita por homens é… Literatura” - Juliana Cargnelutti, estudante de Jornalismo pela UFMT.

O movimento tomou forma, criou braços e pernas e logo não estava mais na Europa e Américas, mas, sim, no mundo todo. Hoje em dia, graças a todas essas mulheres e muitas outras que não tenho como citar - sou uma mera mortal -, conseguimos estampar nos mais vendidos de uma livraria de shopping, alcançar posição dos mais lidos do The New York Times e ser vividamente aplaudido em escolas e faculdade.

É um paraíso. Só que não.

Há um indício que sugere que a proporção entre escritores homens e mulheres não é exclusividade das maiores editoras. Uma relação de 130 romances brasileiros lançados em 2004, organizada para um prêmio literário, indica apenas 31 títulos escritos por mulheres, isto é, 23,8%
(DALCASTAGNÈ, 2005, p. 31)

Continua sendo um preconceito que diariamente é mais descaracterizado. O jornal da televisão indica morte por feminicídio, médicas que perdem os pacientes por ser julgada incapazes e mulheres que, em posições tradicionalmente masculinas, ainda não possuem o devido valor. Compramos uma batalha que mal começou. Ainda temos muito caminho a seguir e batalhas a ganhar, medalhas para receber e títulos para fazer honra.

Mas podem vir, estamos preparadas.

Mesmo com o avanço do movimento feminista, a igualdade dos gêneros ainda está longe de ser uma realidade, inclusive no mercado editorial. O meio literário é predominantemente branco, masculino e hétero. É só conferir os membros da Academia Brasileira de Letras, folhear um caderno literário de um jornal de grande circulação, analisar os vencedores de prêmios literários, conferir a lista de leitura de livros paradidáticos obrigatórios nas escolas, observar os convidados para eventos literários, entre tantos outros exemplos.” - Marina Romanelli em A Representatividade feminina na literatura brasileira contemporânea.

Assume-se que de toda produção literária mundial, cerca de oitenta por cento, de maneira bruta sob contagem desde a Idade Média, é produzida por homens.

Isso é: por enquanto.

Por Beatriz Faria

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