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A Casa: A Jornada de Libertar um Espírito

Murillo Pocci fala sobre seu livro inspirações, uma carta de amor aos leitores.




“Há dois anos atrás, eu jamais diria que isso tudo estaria acontecendo. Para dizer a verdade, há dois anos atrás eu não saberia dizer se estaria vivo hoje.”. Foram com essas palavras que dei início ao meu discurso no sábado (07) ao receber o prémio de melhor terror e suspense de 2019 pelo Prêmio Ecos da Literatura. Muitas pessoas se chocaram com essa frase naquela hora. Imagina se eu dissesse para eles que dois anos atrás eu estava embaixo de um chuveiro, socando o meu corpo e odiando minha própria existência.

***

Em 2016, devido a diversos problemas na minha vida que vinham de péssimas escolhas que estava tomando para mim, eu comecei o tratamento psicológico. Diferente de um tratamento de poucas semanas, no psicólogo é necessário anos para resolver algumas questões, isso quando o paciente não precisa de análises pelo resto da vida. Mas logo nas primeiras consultas, minha psicóloga me ajudou a resolver diversas questões que me levaram anteriormente a decisões autodestrutivas. Não foi um começo fácil, mas logo trouxe resultados eficientes. Durante o início de 2017 eu tive um término no qual, devido ao acompanhamento, eu consegui lidar de forma tranquila para meu próprio coração. Daí em diante eu aprendi muito sobre minha própria personalidade, sobre a minha relação com as formas de amar e experimentei muitas coisas na vida das quais muitas ficaram e outras foram deixadas de lado.

No final daquele ano eu me envolvi em uma forma nova de se relacionar e com a qual eu me encontrei feliz. Mas logo após a virada do ano, em 2018, um simples fato aconteceu, e o meu mundo inteiro foi por baixo novamente.

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Deixem-me explicar:

Logo nos primeiros meses de terapia, fui diagnosticado não só com o quadro de ansiedade, mas também com o quadro de episódios de depressão. Nesse quadro, eu não vivo constantemente sentindo os efeitos desse desequilíbrio. Posso passar um longo período sem sentir tristeza profunda e nenhum sintoma dela, como no término de 2017. Mas as vezes, um simples fato pode causar um furacão em minha mente que destrói os alicerces de tudo que tinha sido construído durante meses de felicidade. E foi isso que ocorreu no começo de 2018.

No começo daquele ano um combo de situações fez com que eu caísse novamente no fundo do famigerado poço. E como se isso já não bastasse, todas as peças desse maldito quebra-cabeça caótico se uniram e desencadearam uma crise de pânico.

Como descrever a sensação do pânico? Bem, é mais ou menos como um curto-circuito no corpo e no cérebro. Você não consegue respirar direito, e isso faz com que você fique mais tenso. Mais tenso, você perde controle sobre partes do seu corpo. Você se contorce e compacta até que você sente como se um buraco negro existisse no centro do seu corpo e sugasse todo o resto dele para o meio.

Durante essa depressão, eu escrevi muitos poemas. Um deles descrevia as dores deste episódio de pânico:

“E me pergunta se eu posso ver

As lanças que perfuram você

E me conta que é isso que acontece

Quando essas crises vêm para te prender.

(...)

Eu vejo as lanças, mas não miram você

Elas apontam para mim, pois chegou minha vez de perder.

E deitados, no meio das névoas e devaneios

Elas acertam meu coração com um golpe em cheio.

Os corpos vibram, tremem e tombam

E por um momento tudo parece escuro como O Fim.”


Eu tive a sorte de ter a Mariana, minha namorada, ao meu lado quando a crise começou, e juntos maratonamos hospitais até achar um no qual meu convênio fosse aceito. Depois de cinco tentativas, encontramos um lugar no qual me injetaram uma dose de calmante que literalmente desabou o meu corpo em questão de minutos. Pelo terror deste episódio, eu cedi, e acordado com minha psicóloga, eu também comecei um tratamento psiquiátrico.

Ansiolíticos e antidepressivos são ferramentas que, no meu caso, serviram como emendas na estrutura de uma represa: Não são a solução definitiva, mas pelo menos servem como resposta temporária para que se encontre uma ação capaz de resolver o problema por completo. Desta forma, enquanto os medicamentos serviram de apoio mental, eu e minha psicóloga buscamos treinar minha mente para que eu fosse mais capaz de lidar com crises e episódios de forma mais independente.

E nessa mesma época, eu finalmente consegui colocar nas primeiras páginas digitais uma série de sonhos que eu tinha tido durante os últimos dois anos.

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Imagine uma casa. Mas uma casa diferente de qualquer outra que você já tenha visto: sete paredes, três tetos, quinze pisos. Sua geometria é abstrata, sua existência praticamente impossível. Seus hóspedes, mais absurdos ainda. Tudo que você ama e preza está lá dentro, basta você enfrentar todos os seus medos e pesadelos que lá residem. Seria capaz de fazer isso?

Desde 2014 eu não conseguia escrever nada que me satisfizesse. Apenas quatro anos depois eu consegui escapar do bloqueio que minha ansiedade tinha desenvolvido em minha mente. Em janeiro eu escrevi uma série de textos, experimentando minha escrita dentro do terror, e em fevereiro eu finalmente consegui colocar esses sonhos absurdos em um enredo conciso e o qual, de fato, eu gostava.

Dessa forma, enquanto eu me recuperava do episódio depressivo da vez, A Casa surgia, um capítulo por noite, lido e aprovado pela Mari. Com a obra finalizada, não só ela como todas as pessoas que liam diziam que essa história devia ser publicada. O medo me dominava só de pensar em transformar isso em algo público, mas tanto apoio e crença na minha escrita me ajudaram a dar o primeiro passo.

De publicação independente, eu tentei a sorte e enviei meu original para a Skull, além de pedir uma forcinha para um autor que já era da casa. Mal acreditei quando fui aprovado. Em 2018 eu tinha batido mais uma vez no fundo do poço, mas graças a escrita e graças ao apoio de todos que estiveram ao meu lado, eu terminava o ano como novo autor da editora, iniciando dessa forma minha carreira como autor.

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O processo editorial de A Casa ocorreu em oito meses do ano de 2019. Lançado no segundo semestre do ano, fiz o máximo para que essa história chegasse no maior número de pessoas. A Casa tinha se tornado o relato semi-biográfico do ano de 2018, lidando com a depressão e ansiedade e buscando ser mais forte para lidar com essas questões. Depois de um ano, recebi alta tanto dos medicamentos quanto da psicóloga, depois de três longos anos. Era o primeiro ano que estava “sozinho”, cuidando da minha mente de forma independente. Exercícios físicos e uma vida com menos imediatismo fez com que a situação se tornasse mais tranquila. Desde a alta até o momento deste texto, tive apenas um episódio de ansiedade intenso, mas o qual consegui lidar sem maiores danos. Acredito que aprendi a lição direitinho da forma que me ensinaram, mas também tenho consciência de que, quando necessário, não terei problemas em retornar para a terapia. É como uma gripe: quando não se resolve em casa, é sempre bom procurar um médico.

Mas o importante é que, lançado no segundo semestre, A Casa se tornou o terceiro livro mais vendido na editora em 2019. E como se isso não fosse o bastante, arrisquei a sorte e lancei meu livro na competição do Prêmio Ecos. Minha surpresa ao ser indicado como um dos finalistas acabou com as forças nas minhas pernas.

No sábado tive o teste mais intenso relacionado a minha ansiedade desde a alta. Senti a tensão no meu corpo e as emoções levadas ao máximo, mas mesmo assim não perdi o controle da minha própria mente. Desculpem preocupar tantas pessoas pelas minhas caras de ansiedade, mas acreditem, eu estava muito bem, visto que antigamente eu estaria me socando e me odiando.

E então, como conclusão de toda essa epopéia, A Casa foi o vencedor de terror e suspense daquela tarde. Ali naquele palco, diante daquelas pessoas e com o prêmio nas mãos, a sensação foi que todos aqueles socos e espinhos finalmente estavam cicatrizados. A catarse de todo o quebra-cabeça maldito que existia na minha mente finalmente estava acontecendo, e falar naquela hora foi uma das coisas mais difíceis. Enquanto estava de cabeça abaixada, antes de discursar, buscava acreditar naquilo tudo, em como a vida tinha mudado em menos de um ano de publicação. Ainda não caiu a ficha. Mas vai cair.

***

E agora? E daqui em diante?

A Casa ainda vai me trazer muito na carreira, por todos os convites e amizades que surgiram nesse último fim de semana. Uma nova edição está a frente e essa história está longe de acabar, assim como a minha.

Hoje eu penso no futuro, coisa que eu não conseguiria enxergar há dois anos atrás. Hoje eu tenho em mente os novos planos, as novas metas e uma ambição saudável, um desejo de contar minhas histórias para o máximo de pessoas possíveis.

O próximo livro tem uma história muito importante na minha vida também, mas creio que não cabe neste texto. Acho que, depois de todo esse relato, o que eu queria dizer para cada um se resume a uma das últimas frases do meu discurso: eu estou aqui estendendo a mão.

O meu maior desejo é que todas as pessoas que se encontram nessa escuridão consigam encontrar a mesma luz que eu achei. Se você se reconheceu em um algum trecho deste texto, eu quero que saiba o quanto eu amo você e sua alma e o quanto eu torço por você assim como torceram por mim. Eu quero que você saiba o quanto você é importante e quero que você saiba que eu estou com lágrimas nos olhos por conhecer um pouco da dor que você sente. Mas por favor, não desista. Eu juro para você que além deste lugar frio existe uma vida cheia de realizações, a qual eu quero ver e aplaudir de pé. Eu quero que cada um de vocês possa chegar no mesmo lugar que eu estive neste sábado, pois você merece o mundo só por existir de forma tão bela.

E se você precisar, saiba que alguém sempre vai estar aqui por você.

Nós estamos estendendo a mão para você. Venha.

Eu prometo que a jornada vale a pena.




Com amor,

Murillo Pocci.

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