• Gabriel Cordeiro

3# O HERDEIRO DIVINO


O herdeiro divino

Capítulo um

Antes de ser atingido por um meteoro, o dia de Julian estava seguindo normalmente. Ele acordou cedo, sentou-se na cama e deu um longo bocejo, coçou a cabeça algumas vezes e olhou pela janela, onde o Sol brilhava forte e haviam alguns pássaros parados em sua janela. Ele se levantou e foi até o banheiro, e ao olhar-se no espelho vira seus cabelos loiros bagunçados, os olhos tão verdes quanto esmeraldas pareciam sonolentos e preguiçosos.


Depois do banho, o garoto se vestiu. Seu quarto não era muito grande, ali cabiam apenas uma cama, um armário e um criado mudo, e próximo à saída havia uma janela que dava para o prédio em frente.


Ele saiu e foi andando até a cozinha, e ao abrir a geladeira encontrou um pedaço de pizza e uma garrafa de leite que seriam seu café da manhã. O pequeno apartamento não era o Palácio de Buckingham, mas era um lugar confortável e Julian achava sua residência humilde e um bom lugar para se viver.


Não demorou muito e pegou sua mochila que estava jogada em seu sofá e saiu do apartamento. Apesar de ser aconchegante, ele não era muito bom em relação à estrutura. Cansou-se das várias vezes em que teve de arrombar a porta porque a maçaneta se soltava em suas mãos, das vezes que os pombos faziam ninhos em suas janelas, e o processo que tinha de realizar para trancar a porta, rodando a maçaneta para vários lados diferentes antes de ter certeza que a porta estava bem fechada.


Mal o garoto havia começado todo este processo, alguém gritou logo atrás dele:


— CARTER!


Julian quase deu um salto e seu coração queria sair pela boca. Ao se virar, deu de frente com um homem gordinho. Tinha cabelos castanhos, olhos azuis, ostentava uma barba um tanto grisalha e levemente volumosa, e apesar de imponente, ele era apenas alguns centímetros mais baixo que Julian, vestia uma camisa preta já um tanto desbotada, calça jeans e tênis pretos. Aquele era Álvaro Flint, síndico do prédio onde o garoto morava. Era uma pessoa boa e sempre ajudava Julian quando precisava de algum conserto na casa, principalmente de um ano para cá. Entretanto, era severo com relação à algumas coisas.


— Bom dia, Sr. Flint – Respondeu o garoto ainda se recuperando do susto.


— Você sabe que dia é hoje, jovem?


Julian olhou para o horizonte tentando se recordar de alguma data.


— Não... É seu aniversário?


Sr. Flint bufou e disse:


— Hoje é dia cinco, dia de receber o aluguel. Que por sinal, ainda não recebi.


— Bom... – Disse Julian meio sem jeito – Eu sabia que estava me esquecendo de algo. Hoje vou receber meu salário e prometo que pagarei o senhor pela manhã.


Flint olhou novamente para o garoto, virou-se voltando para casa e batendo a porta ao entrar.


— Que mau humor logo pela manhã! – Comentou Julian.


O garoto desceu a escada e foi até o ponto esperar o ônibus da escola. Quando este chegou, ele subiu e se deparou com vários outros adolescentes falando alto, jogando bolas de papel uns nos outros e até mesmo jogando basquete. Depois de ser atingido por algumas bolinhas, Julian encontrou um lugar no fundo do ônibus. Ali era perfeito para olhar a cidade de Stoker.


Stoker City não era uma cidade muito segura, principalmente à noite, entretanto, era uma muito bonita. Haviam construções góticas em alguns bairros e vários monumentos espalhados pelos pontos turísticos, e no inverno ficava coberta de uma camada leve de neve.


Havia sido construída no gigantesco terreno do castelo de Willian Stoker, e a área era tão grande que se estendia por vários quilômetros até chegar à baía. Uma ilha localizada à frente da cidade era o porto onde antigamente se faziam os negócios marítimos, e agora era um Distrito Industrial. Haviam outros bairros que cresceram perto dos destroços do castelo onde agora eram conhecidos por Cidade Velha e Bairro da Liberdade, onde ficava o prédio do Sr. Flint.


Ao chegar na escola, Julian viu a complexa sociedade escolar se montando. Atletas jogavam uns aos outros no chão, patricinhas se maquiavam com uma precisão quase cirúrgica, o pessoal do teatro ensaiava uma peça para o Solstício de verão e os nerds liam suas HQs como se estivessem lendo um livro sagrado. O garoto sempre observara aquilo, porém nunca teve aptidão para alguma daquelas atividades, pois não tinha porte físico para ser atleta, dançava como se fosse uma centopeia no asfalto quente, e não tinha muito interesse na garota com quem o Homem Aranha deveria ficar. Isso fazia dele um “Zé Ninguém”, o que não era necessariamente um problema, ao contrário, era reconfortante não ser o centro das atenções.

Ele chegou ao seu armário, o abriu, pegou os livros e foi direto para a sala de aula, sentou-se próximo a janela e ali esperou que seu professor chegasse.


Não demorou muito e o Prof. Hume entrou na sala. Era um homem alto de cabelos brancos, usava óculos, tinha os olhos tão castanhos, que por vezes Julian podia jurar que eram amarelos, usava um terno risca de giz, e tinha uma cicatriz no olho esquerdo que se estendia do topo da sobrancelha ao meio da bochecha. Tinha um nariz longo, fino e torto, o que fazia alguns alunos espalharem o boato de que o professor participava de algum clube da luta secreto, mas a julgar pelo que se via de Hume, isso não passava de um grande boato.


Ele sentou-se à mesa, e abriu sua pequena pasta tirando um livro velho e de páginas amareladas.


— Aula de hoje: A Guerra Civil Americana — Disse ele com uma voz tão rouca e sombria que até “Parabéns pra você” iria parecer uma música fúnebre.


A aula perdurou por um tempo e estava tão boa que assistir a grama crescer parecia ser algo mais divertido. Depois de quase uma hora de aula e mais da metade da turma dormindo em seus assentos, o garoto decidiu olhar para janela.


O susto foi tão grande que quase o derrubou da cadeira. Uma garota estranha estava do lado de fora da sala à sombra de uma árvore, olhando para ele fixamente como um leão antes de atacar a presa. Ela vestia um sobretudo preto que lhe cobria quase todo o corpo e só dava para ver seus cabelos pretos e longos, mas era certo que ela o olhava fixamente. Julian olhou para o professor que continuava a ler seu livro atentamente, mas ao voltar sua visão para a janela, a garota havia sumido tão rápido quanto tinha aparecido, e o menino levantou para ver se ela ainda estava lá.


Não demorou muito e ele sentiu alguém tocar em seus ombros. Era o prof. Hume nem um pouco contente.


— Sr. Carter, o que há de tão interessante lá fora que o faça não prestar atenção na minha aula?


Ele olhou para o professor. O que poderia responder, que havia uma garota louca do lado de fora da escola olhando para ele como se quisesse matá-lo? Isso seria no mínimo um motivo para que ele o achasse mais idiota do que já o achava.


— Eh...eh...


— Bem, se não sabe o que está vendo poderia fazê-lo do lado de fora da minha sala de aula.


— Mas professor... – Tentou argumentar Julian.


— Nada de “mas”! Quero que saia imediatamente da sala!


Julian preferiu não discutir, apenas pegou sua mochila e saiu. Enquanto andava pelo corredor, tentava entender como aquela garota apareceu para ele, mas decidiu deixar para lá. De repente era apenas impressão, e por algum motivo, ele estava começando a imaginar coisas. O garoto foi até o cemitério da cidade, chegou à lápide que estava no topo de um pequeno morro, onde haviam muitas outras por perto, grandes árvores que faziam sombra e o vento que circulava ali era fresco e suave. Se sentou na frente do túmulo e lá estava escrito:

Helena Rose Carter

10/11/1977 — 24/7/2013

Amada filha e amada mãe


Aquela era a mãe de Julian, que havia morrido há um ano em um acidente de carro. O garoto estava com ela, dormia no banco de trás e não vira o que tinha acontecido. Passou duas semanas em coma e quando acordou já estava órfão. Como não tinha outros parentes, passou a viver sozinho. Seu pai? Não fazia ideia de quem era, a única coisa que sabia era que pouco antes de que o garoto nascesse, ele desapareceu e a única coisa que deixou foi um cordão de prata com um medalhão que tinha um desenho, uma estrela de quatro pontas com um par de asas e logo atrás delas um círculo. Sua mãe disse que era um presente dele e que deveria ser usado sempre, e mesmo não sabendo bem o porquê disso, ele jamais tirava o cordão. Desde os dezesseis anos teve que aprender a se virar e viver sozinho e o Sr. Flint o ajudou no início, mas era difícil conviver com a saudade da mãe. Por sorte, Helena trabalhava de enfermeira para o exército e deixou uma boa pensão para que Julian pudesse se manter pelo resto da vida. Graças a esse dinheiro o garoto podia se sustentar, pagar seu aluguel, e comprar tudo o que era necessário para sua sobrevivência, entretanto, não o impediu de procurar um emprego, já que tinha muito tempo livre, e ficar em uma casa vazia sem fazer nada apenas aumentava seu sofrimento. Era comum que Julian passasse horas sentado em frente à lápide olhando para ela e as vezes conversando, e com o passar dos anos, estar naquele lugar se tornou menos doloroso, era um momento onde ele poderia ter de volta aquilo que perdeu de forma tão repentina. Por vezes sentia como se alguém lhe abraçasse ou mexesse em seus cabelos, como se sua mãe estivesse ali de alguma forma.


Um pouco abaixo do nome dela havia uma foto. Helena usava um vestido azul cheio de rendas brancas, tinha cabelos lisos e longos, escuros como o céu sem estrelas, olhos verdes, um nariz perfeito e um sorriso carinhoso e delicado. Por muitas vezes Julian vira aquele sorriso de perto e era reconfortante estar ao lado da mãe, sempre muito compreensiva e gentil com ele e com quem quer que fosse. Ela o chamava de meu pequeno anjo, e antes de dormir ia ao seu quarto para dar-lhe o beijo de boa noite. Por mais que o garoto achasse que estava velho demais para tudo aquilo, a mãe sempre dizia que não importava a idade, ele sempre seria seu pequeno filho.


As lágrimas já escorriam pelo rosto de Julian, seu coração apertava, algo parecia estar preso em sua garganta, ele havia prometido a si mesmo que não choraria mais e que seria forte dali para frente, mas as vezes a saudade falava muito mais alto. Faziam apenas um ano que ela havia partido, mas para o garoto era uma eternidade. Infinitas noites sem conversas, beijos e abraços, jogos sem companhia, e principalmente sem poder estar com ela.


O garoto se levantou e enxugou os olhos olhando para a lápide, e logo depois deu um sorriso tímido, porque sabia que mesmo que ela não estivesse ali fisicamente, ela estaria o protegendo de tudo.


Ele saiu do cemitério e foi até o ponto de ônibus, decidiu ir trabalhar mais cedo na esperança de que seu chefe o deixasse sair antes do horário terminar. Não demorou muito e chegou nas redes de lanchonetes “Burger Queen”, entrou pelos fundos e vestiu uma camisa roxa e amarela com um boné nas mesmas cores, possuindo uma coroa bordada bem no meio. A lanchonete era grande com mesas quadradas e cadeiras de metal com estofo cor roxa. Julian ficava no caixa atendendo os pedidos de quem chegava, e para ele, era uma atividade no mínimo cansativa, pois algumas pessoas não tinham o senso do ridículo e tentavam de uma forma ou de outra perturbar a vida do garoto.


Quando chegou próximo ao balcão, ele se deparou com o Greeg Mayers, o gerente daquela lanchonete. Deveras magro, tinha olhos fora de linha e várias espinhas no rosto, era um tanto baixo para a idade que tinha, os cabelos pareciam muito mal cuidados dentro de um velho boné roxo e amarelo que desbotava a cada dia, e o mesmo poderia ser dito da camisa, se esta também não estivesse coberta de molhos que ele usara para comer besteiras. O pior era o forte cheiro de peixe podre e pepino que por vezes saia da boca de Greeg.


— Carter! – Disse ele. — Veio trabalhar mais cedo hoje?


Coçando o nariz para disfarçar que se escondia do mau cheiro, Julian respondeu:


— Saí mais cedo da escola hoje e gostaria de saber se poderia começar a trabalhar com antecedência e sair um pouco antes do horário?


— Mas é claro... Que não! — Respondeu Greeg com uma expressão irônica no rosto espinhoso.


— Como assim?! – Retrucou o garoto.


— Vou pagar pela hora extra que vai fazer, mas não posso deixá-lo ir mais cedo.


— Mas, mas, mas...


— Nada de “mas”, agora vista seu uniforme e vá trabalhar!


Sem muito o que fazer, Julian foi para o balcão, onde ficou das 11h às 22h30. Ao sair, teve a leve impressão que a frase “Bem-vindo ao Burger Queen, posso anotar seu pedido?” jamais iria sair da sua cabeça. Stoker City estava estranha naquela noite, mais deserta do que de costume, poucas ou quase nenhuma pessoa estavam pelas ruas e os becos estavam mais escuros e sombrios.


O garoto chegou na rua Quentin, era cheia de lojas, mas que naquela hora estavam fechadas. Ele olhou para os lados e viu que estava sozinho naquele lugar.


Foi então que aconteceu, uma luz branca cercou o local. Algo perecido com um meteoro passou a vários metros diante do garoto e caiu com um baque seco em um beco ali próximo, e ele correu a toda velocidade para ver o que era. Alguns metros dentro do beco estava uma luz grandiosa, muito brilhante, o clima do lugar estava mais pesado, a temperatura tinha subido. As pernas de Julian tremiam e suas mãos suavam bastante, e mesmo com medo, ele se aproximou da luz branca. A cada passo que dava, parecia brilhar menos, e olhando para a luz, viu que havia alguém ali. Era um homem, talvez alguém que tivesse se ferido com a queda do meteoro. Ele chegou mais perto, era um homem negro de cabelos pretos e curtos, os olhos eram azuis como o céu, seu rosto estava com marcas de escoriações e de fuligem.


O estranho então olhou para Julian, que com a voz trêmula perguntou:


— Quem é você?


O estranho lhe respondeu:


— Meu nome é Uriel, sou um anjo do senhor.


O corpo de Julian começou a tremer sem parar, tentava falar, mas nada conseguia sair de sua boca. Agora ele vira a luz baixar, Uriel vestia uma espécie de armadura, parecia ser feita de ouro e prata e muito resistente, entretanto, estava cheia de rachaduras e buracos como se tivesse suportado uma violenta batalha. Saindo das costas dele havia um grandioso par de asas de penas brancas e brilhantes que se estendiam por toda a largura do beco.


— Chegue mais perto, jovem! — Pediu Uriel.


Mesmo temeroso, Julian começou a andar até o anjo. Não era andar, suas pernas se moviam sozinhas, e o garoto chegou e se ajoelhou ao seu lado.


— Você é realmente parecido com ele, Julian Carter — Disse o anjo.


— Como você sabe meu nome? E quem é “ele”?! – Perguntou-lhe o garoto assustado.


— Eu pensava que você seria igual aos outros, mas posso ver em você uma grande diferença dos demais. Se você pudesse ajudar outras pessoas, mudando o destino delas, você o faria?


Julian ficou sem palavras, não sabia o que pensar, estava assustado com o que estava acontecendo, sua cabeça era um emaranhado de pensamentos confusos e dispersos, mas no fundo do seu coração o garoto sabia exatamente o que responder.


— Sim, ajudaria. Mas o que você quer?


Uriel sorriu.


— Coloque minha mão no topo da sua cabeça, por favor!


Julian pegou a mão do anjo e tentou levá-la até ele, mas o braço estava machucado, o que fez Uriel guinar de dor.


— Seu braço! — Disse Julian, preocupado.


— Não se preocupe, eu aguento.


Ele pousou a mão sobre a cabeça de Julian e começou a brilhar em cor dourada.


— O que vai acontecer agora irá mostrar o mundo para você de outra forma, vai lhe dar uma visão que nunca tivera da humanidade. Você sabe o que é a dor e sabe como se sentem aqueles que sofrem, use seus dons sempre para proteger aqueles que mais precisam.


Ele brilhou mais forte ainda, Julian podia ver o sorriso do anjo, era gentil, simpático e de alguma forma passava paz para ele. O brilho dourado se intensificou a ponto de fazer com que o garoto fechasse os olhos. Ao abrir novamente, o anjo havia sumido, mas o garoto se sentiu estranho, como se fosse tomado por um forte sono e acabou desmaiando.


SINOPSE:

Julian perdeu a mãe muito cedo, seu pai simplesmente desapareceu quando o garoto era muito novo para lembrar até mesmo de quem ele mesmo era. Morando sozinho e com a ajuda do seu síndico ele acabou se tornando um adulto mais rápido do que deveria, porém sempre manteve fé e esperança de que as coisas não eram sempre tão ruins. Entretanto em uma noite deserta e fria, Julian encontra uma luz tão forte que parecia vir de outro mundo. A partir desse dia o jovem garoto começou a ver que neste mundo existe mais coisas do que nossa imaginação poderia pensar. Os desafios que Julian vai enfrentar e as pessoas que vai conhecer, vão mostrar que ele não é apenas um simples garoto, mas a união de dois mundos.

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