• Gabriel Cordeiro

2# BRIGHT

Leia com exclusividade o primeiro capítulo de Bright, lançamento da autora Maria C. Reis pela Editora Skull.

Alexander — 28 de setembro de 2012, sete horas da manhã.


Poderia ser um dia pacato e banal na cidade de Nova Iorque.

Os arranha-céus emoldurando a vista de meu mais novo apartamento, as buzinas dos carros que circulavam pela rua nobre onde residia, a breve brisa daquela manhã primaveril adentrando a pequena fresta da janela do meu quarto, as pessoas (que mais pareciam pequenas formigas e pontos disformes, pelo que meus olhos poderiam captar do décimo terceiro andar do meu loft) que circulavam pelas ruas já cheias daquela manhã com suas vidas apressadas e desinteressantes… A barulheira, a vista impecável, tudo era monótono sob meus olhos. Mas, como eu disse, poderia ser um desses dias em que fitaria a janela, recém tendo despertado e completamente entediado com a minha vida perfeita.


Poderia. Mas não era um dia comum, não mesmo. Aquele era um sábado ameno da primavera do pior ano da minha vida. O dia em que Alexander William Lockhart iria se casar.


Existem coisas na minha vida que eu nunca duvidaria: minha habilidade para desenho, meu sucesso adquirido com tal talento, minha mania de organização que talvez nunca fosse cessar, meu bom gosto para vinhos e mais uma lista infindável de atos, minhas manias que tanto me caracterizavam. Mas existia um item, um único item na minha vida que não poderia nem sonhar em encaixar-se na minha lista de “certezas”. Se existisse uma lista de “dúvidas” na vida de Alexander Lockhart, o item “casamento” estaria no topo dela.


Eu nunca quis me casar. Nunca sonhei em conhecer alguém que fosse bom o suficiente para me arrastar para uma igreja, ou cartório. Impossível e fora de cogitação. Desde minha adolescência, eu era sistemático com meus relacionamentos e não pretendia mudar. Eu não pertenceria a ninguém, era no que sempre acreditei.


Até conhecer Evellyn Stout, a famosa arquiteta e empreendedora nova-iorquina. E também a mulher que eu não amava. Nunca amaria.


Assim que me levantei, afastando os lençóis de seda enegrecidos, a calça fina de meu pijama azul-escuro sendo a única peça que me recobria o corpo, e empurrei meus fios negros para trás, tentei ao máximo não lembrar que, no fim do dia, eu seria um homem casado. Respirei fundo, o ar saindo por entre meus lábios em um bufar, já denotando que aquele não seria um dos meus melhores dias. Eu já estava de mau humor, já estava lutando para me erguer e me arrastar pelo meu quarto mal iluminado, quando o telefone tocou.


Grunhi, as mãos se esfregando por minha face, enquanto aquela preguiça clara parecia não querer abandonar meu corpo e o toque estridente de meu celular me provocava ainda mais desmotivação. Visivelmente irritado, saltei da cama para alcançar o aparelho no rack diante de mim, logo ao lado da prateleira de aço repleta de meus DVDs de clássicos de ficção científica (guilty pleasure, eu sei).


— Gustav. – Minha voz soou rouca e extremamente cansada. Não que eu estivesse esgotado, pelo contrário. Eu sempre acordava animado para mais um dia de trabalho, de criações e de uma vida monótona, que não parecia tão indiferente sob os meus olhos até então. Eu dormia cedo demais para um homem da minha idade (vinte oito anos, por sinal) e aquela preguiça, aquele cansaço fingido, tinham outro nome: receio.


— Alexander! – A voz animada de meu irmão ecoou do outro lado da linha e me segurei para não xingá-lo. Aquele telefonema possivelmente não passaria de alguma conversa fútil de meu irmão mais novo, mas, ainda que talvez eu tivesse acordado em um péssimo humor, eu ainda tinha prazer em deixar Gustav tagarelar. Ele era a única coisa que me transportava para casa, para minha família. – Alexander? Está me ouvindo?


— Sim, estou. O que quer? São seis horas da manhã, Gustav! – Levei os dedos, novamente, para os cabelos, empurrando-os para trás, enquanto meu olhar percorria a organização impecável de meu quarto.


A cama, por mais que tivesse recentemente acordado, encontrava-se pouco revirada, assim como os objetos em meu criado-mudo. As canetas, o meu inseparável bloco de anotação, meu maço de cigarros e o isqueiro alinhados quase que em uma suprema perfeição, do meu lado da cama. O móvel ocupava boa parte do quarto e, admito, foi um das minhas maiores inúteis aquisições.


Era exageradamente grande, recoberta por lençóis escuros de seda e um edredom, como sempre, de cor semelhante. A cabeceira era de madeira bem polida, tabaco, assim como os pequenos móveis ao lado da cama e o rack, onde se encontrava a enorme TV, meus aparelhos eletrônicos e minha coleção de filmes e séries, sempre dispostas de forma organizada (os DVDs em ordem alfabética e os demais itens alinhados perfeitamente, como sempre).


Como Gustav diria, meu quarto era sagrado. Pouco se podia ver da minha vida profissional conturbada e de minha mente confusa. Por muitas vezes, arrumei cada canto daquela casa pessoalmente, não por falta do que fazer, mas sim por um reles capricho e pela mania absurda de organização que eu possuía.


Desde pequenos éramos assim: Alexander, o organizado, mesmo que inquieto e inconstante. Gustav, o desastrado, tão desorganizado quanto nossa própria mãe. Tinha saudades daquele tempo, de quando eu e Gustav éramos jovens e possuíamos poucas preocupações. Quando passávamos nossas tardes assistindo a filmes trash e conversávamos sobre as anormalidades mais peculiares. Em tardes como aquelas, não pensávamos no futuro, no que iríamos nos tornar. E, se eu soubesse que me tornaria quem eu era... Sinceramente, eu teria feito tudo diferente.


A começar por aquele casamento.


— Alexander, você está aéreo pra caralho! – exclamou, tossindo logo após, enquanto resmungava algo para alguém possivelmente ao seu lado. Não reconheci a voz masculina que tanto perturbava meu irmão e não me atentei muito a isso. Voltei-me em direção ao corredor (descendo vagarosamente as escadas do loft), rumo à cozinha, ao que Gustav prosseguia a falar. – Preciso de um enorme favor seu.


Suspirei, liberando minha respiração de forma audível, propositalmente. Gustav riu, como sempre, provavelmente já imaginando o quão irritado eu me tornaria em breve. Quando meu irmão vinha com a famosa frase “Preciso de um enorme favor seu”, poderia contar com alguma extravagância que ninguém mais havia topado em fazer. E sempre sobrava para mim.


— Fala, Gus. – chamei Gustav pelo apelido, tentando amenizar a situação e tranquilizar a mim mesmo. Eram tantos problemas, tantas irritações, que me perguntava, constantemente, se Gustav se esquecia de que eu estava sempre extremamente ocupado, sem nem ao menos ter tempo para mim mesmo, para ajudá-lo com suas esquisitices.


— Como hoje é o seu maravilhoso dia… – A ironia de Gustav ás vezes me arrancava gargalhadas, mas não naquele instante. – E sei que depois de toda a cerimônia, você vai se mandar para Londres com a Srta. Estorvo… – “Não chame Evellyn de estorvo”, corrigi, como sempre, já imaginando Gustav revirar os olhos, ao que pigarreou e prosseguiu. – E provavelmente só voltará daqui há duas semanas, preciso saber se pode emprestar o apartamento para um amigo meu. – ele disse a última frase tão rapidamente e alto, que tive que me apoiar na bancada da cozinha para não tropeçar em um dos bancos, tentando digerir toda a informação.


— Um amigo seu? – perguntei, adentrando de vez a cozinha também mobiliada em móveis tabacos e ladrilhos de tons escuros, assim como os eletrodomésticos, e notando que alguns pontos desta deveriam ser arrumados urgentemente. – Por que, Gus? Não tem lugar no seu apartamento?


— Não, se não… Eu nem ao menos teria te pedido, Alexander. Jaymme trouxe a mãe para passar uns tempos conosco e não tenho lugar para o Theodore. – ele fez uma breve pausa e, pelo que parecia, o tal Theodore resmungou em concordância e em um tom baixo, me impedindo de entender suas palavras. Gustav prosseguiu, enquanto eu me ocupava em buscar uma de minhas canecas em um dos armários do alto. – Olha só, é super temporário. Ele não é daqui, não conhece praticamente nada e estava dividindo o apartamento com um primo, quando o cara também resolveu se casar e praticamente o expulsou de lá. Talvez ele nem precise ficar mais do que uns cinco dias por aí, parece que ele já está prestes a achar um lugar para ficar, mas falta fechar algumas coisas do contrato, sabe como é. Por favor, Alex... Sabe que eu não te pediria esse tipo de coisa, se não fosse urgente. Nós dois sabemos muito bem como você é insuportável a respeito desse apartamento.


Segurei-me para xingá-lo já que, no exato instante em que ele havia terminado de falar, peguei-me alinhando algumas de minhas canecas dentro do armário, naquele terrível hábito que tinha, antes de escolher a que mais me agradava e focar-me na cafeteira, já ligada e pronta para alimentar-me com um dos meus vícios favoritos.


— Que amigo é esse, Gus? Olha, você sabe muito bem como eu sou... Organizado. – Disse e Gustav riu, calando-se imediatamente quando pigarreei alto e praticamente desliguei a cafeteira diretamente na tomada, sem muita paciência. – Como vou saber que ele não irá destruir todo o meu apartamento? Você tem certeza de que não tem lugar por aí?


— Alexander, eu preferiria mil vezes que ele ficasse comigo e com Jaymme, mas não dá. Não mesmo. Eu estou até meio que irritado com isso, mas... Enfim. Theodore me prometeu que não fará nada. Ele arranjou um emprego em uma livraria, sei lá... – Gus foi interrompido pelo tal Theodore, que exclamou alguma coisa, já distante, e pude escutar o estrondo de alguma coisa se quebrando, o que obviamente me assustou. Se aquele rapaz estava destruindo a casa de Gustav, eu realmente não estava disposto a ver o meu apartamento tornar-se um campo pós-guerra. – Em uma biblioteca, está bem. E ele faz faculdade comigo o dia inteiro, seria apenas para ele ter algum lugar pra dormir... E não é como se fosse um estranho, há tempos eu venho tentando fazer com que você...


— Ele pode dormir no seu sofá. – teimei, levando a xícara, já com o café posto, para entre meus lábios, sorvendo o líquido com lentidão, saboreando-o com o mesmo ar despreocupado de sempre, não dando o braço a torcer. E podiam me chamar de egoísta, mas eu não iria ceder meu apartamento para um estranho qualquer.


— Quer saber? Esquece, Alexander. Eu sabia que não poderia contar com você mesmo, não sei por que me iludo ás vezes. – e Gus poderia fazer a sua típica voz infantil e manhosa, extremamente repugnante, porém... Não. Ele falava sério e eu percebi que o tal Theodore significava alguma coisa para ele. O que, instantaneamente, fez com que eu sentisse aquela pitada ridícula de ciúmes. Era o tipo de coisa que Gustav faria por mim.


Faria. Digamos que a minha situação não era mais favorável para o nosso relacionamento familiar e isso só piorava. Eu havia me tornado aquele idiota egoísta, sem nem ao menos perceber. Aliás, eu sabia e talvez aquilo fosse um bom sinal.


— Argh, Gus. Mais tarde eu lhe dou a chave. – comecei a falar e tive que revirar os olhos, ao que Gustav gritou algo para Theodore, que mal consegui identificar o que era, fazendo-me voltar a falar, um tanto quanto mais alto. – E é temporário! Não quero desconhecido algum fazendo bagunça no meu apartamento. Agora preciso desligar, mais tarde conversamos.


— Certo! Obrigado, Alexander. Theodore está saltitando pela sala em agradecimento. – disse e revirei os olhos novamente, sentindo aquele meu habitual frio na espinha, que sempre resolvia aparecer quando eu me metia em alguma enrascada. – Fique quieto, Theodore! Que diabos?!... Okay, certo, Alexander. Nos vemos mais tarde, noivo!


E desliguei antes que Gustav o fizesse, deixando meu celular sobre a bancada da cozinha, enquanto mantinha meu olhar fixo no mármore acinzentado da mesma. Mais um suspiro me escapou e aquilo não era um bom sinal. Eu não era um cara de suspirar, de me lamentar a cada cinco segundos, mas eu estava o fazendo. Constantemente e irritantemente.


Deixei a caneca sobre a bancada, direcionando-me para o breve corredor, novamente, seguindo o caminho para o banheiro do andar inferior, sem pressa alguma. Eu queria que aquele dia passasse o mais demoradamente possível. Eu não queria que o relógio marcasse oito horas da noite de forma alguma.


Encarei meu reflexo no espelho, assim que adentrei o grande cômodo, igualmente impecável. Minhas mãos espalmaram a borda da pia escura, enquanto encontrava minhas orbes esverdeadas e minha feição por longos segundos.


Eu deveria estar feliz. Eu deveria estar sorrindo de orelha a orelha, agradecido por ter a oportunidade de constituir família com uma mulher belíssima. Eu deveria estar feliz com a vida que eu tinha, com todos os afazeres e com a montanha de dinheiro que entrava em minha conta no fim do mês. Eu deveria estar feliz, mas eu não estava.

Eu deveria querer me casar... Mas eu não queria.

SINOPSE:

Alexander Lockhart é um famoso desenhista e editor de histórias em quadrinhos. Está prestes a se casar com uma das mais renomadas arquitetas da América do Norte e possivelmente terá uma vida mais do que perfeita ao seu lado. Possivelmente, pois Alexander não irá ter.

 Lockhart acaba fugindo do casamento antes do esperado e revela um segredo que esconde desde a adolescência. Ele, um homem que vê a vida de forma sistemática e monótona, decide seguir sozinho e reconstruir sua vida de outra forma.

Até conhecer Theodore Montgomery, um estudante de música, aspirante a rockstar e completamente o seu oposto, melhor amigo de seu irmão e sem um teto pra morar. Falante, inquieto, bagunceiro e extremamente barulhento, Theo quer que o mundo cante suas letras e vive para sua música, mesmo com todas as dificuldades que aparecem em seu caminho.

Quando o caminho dos dois se cruzam, surge a certeza de que nada mais será o mesmo para Lockhart e Montgomery. Com apenas algumas horas de convivência e dividindo o seu teto com um estranho, Alexander vê seu mundo virado de ponta a cabeça e cada parte de si passa a ser tumultuada pela presença do jovem rapaz espevitado.

Alex poderia se arrepender e desistir da boa vontade em ajudar o garoto em um momento tão difícil. A não ser por perceber, pouco a pouco, que Theo é exatamente o que ele precisa para reconstruir a si mesmo.

COMPRE O LIVRO AQUI!

91 visualizações
  • Facebook - Círculo Branco
  • Instagram - White Circle

CNPJ: 27.540.961/0001-45
Razão Social: Skull Editora Publicação e Vendas de Livros
Endereço: Caixa postal  79341 - Cep: 02201-971, - Jardim Brasil, São Paulo - SP

© 2020 Skull Editora. Todos os direitos reservados.